Cisnes negros e a verdade: você buscou a melhor forma de trabalhar?

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Tivemos um brown bag na Lambda3 sobre Management 3.0 recentemente, logo após o Agile Trends. Durante o brown bag alguém sugeriu o livro “Black Swan”, que nesse momento estou ativamente devorando. Estou a 20% do livro, e está sendo um livro delicioso. Até esse momento o livro tem sido sobre filosofia, complexidade e epistemologia, que em poucas palavras e simplificando muito é o estudo da verdade, do que é verdade e do que não é.

Eu gosto de discutir sobre o que eu leio com alguém, eu “ensino” o que aprendi, como uma forma de fixar o conhecimento em mim mesmo. E meu interlocutor normalmente também gosta muito, porque aprende junto. Ter uma namorada inteligente ajuda muito, já que é ela quem tem me ouvido, com muito interesse, e com muitas perguntas interessantes. A última que ela me jogou foi: “e como você vai usar isso no seu trabalho, você vê alguma conexão?” Sim, vejo, e nasceu esse post.

O livro se chama “Cisne negro” não à toa. Imagine que você sempre tenha visto, a vida toda, somente cisnes brancos. Você pode inferir que não existem cisnes de outra cor. Até que um dia você vê um cisne negro. Uma única aparicão deste animal negro é suficiente para acabar com a sua crença de que todos os cisnes são brancos.

Nós temos, geneticamente, a tendência a generalizar, a projetar o nosso conhecimento além dele mesmo. É natural que tenhamos a crença de que todos os cisnes são brancos se todos os cisnes que vimos até hoje foram brancos. Mas isso não quer dizer que é verdade. Se o seu interesse é descobrir a verdade, há algumas maneiras de prosseguir.

A mais comum é justamente essa projeção. Você pode afirmar: “se todos os cisnes que vi são brancos, então não existem cisnes de outra cor”. Podemos deduzir a partir dessa afirmação que toda coisa que não é branca não pode ser um cisne. Assim, ao ver um carro vermelho, você pode dizer: “Está vendo! Um carro vermelho! Isso prova que todos os cisnes são brancos!”. Olhando por essa forma fica óbvio que essa abordagem tem problemas.

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A outra forma é entender que nunca ter visto um cisne negro não significa que ele não existe. É diferente dizer “não há evidências de cisnes negros” de “há evidências de que não há cisnes negros”. No primeiro, você está dizendo que nunca viu um cisne negro, mas ele pode existir ainda assim, sem você ter visto. Na segunda, fica claro que você buscou o mundo todo, você já viu todos os cisnes, e nenhum era negro. A segunda é mais difícil de ser provada, mas é a única que vai realmente provar se cisnes negros existem ou não.

Evoluindo esse raciocínio podemos concluir que é muito mais fácil provar que uma afirmação é falsa do que provar que é verdadeira. É mais fácil provar que a afirmação “todos os cisnes são brancos” é falsa – basta encontrar um único cisne negro – do que provar que ela é verdadeira – você teria que ter vistos todos os cisnes do planeta.

Outro problema que vem desse é que temos uma forte tendência a tentar confirmar o que já acreditamos, e jogar toda evidência em contrário no lixo, ou simplesmente ignorá-la. Se você passar a vida toda procurando cisnes brancos, sempre encontrará novos animais para comprovar sua hipótese. A cada novo cisne branco você estará mais certo de que existem somente cisnes brancos. E vai estar errado. Isso se chama “viés de confirmação” (prefiro o termo em inglês, confirmation bias). Em vez de procurar evidências de que está errado, você procura evidências de que está certo, nunca se aproximando da verdade. Todo seu estudo, toda sua busca, só te afasta mais da verdade, e não serve pra nada. Seria mais inteligente e mais produtivo se, ao crer que cisnes brancos são os únicos a existir, começasse a buscar os de outra cor. Ao encontrar o primeiro você saberia que estava errado, e se nunca encontrar, ainda que não tenha certeza que está certo, terá uma chance menor de estar errado.

Vamos voltar para o mundo real e parar de falar de cisnes. Vamos voltar à pergunta da minha namorada: “e o que isso tem a ver com o seu trabalho?”

Olhei para como trabalhamos na Lambda3. Nós nunca aceitamos a primeira maneira de fazer as coisas como a melhor. Quando buscamos uma ferramenta para resolver um problema nunca paramos na primeira ferramenta. Imagine que ao encontrar uma excelente ferramenta eu afirmasse: “essa é a melhor ferramenta para resolver esse problema.” Eu estaria certo? Não é possível dizer, enquanto eu não tiver analisado todas as ferramentas que resolvem o mesmo problema. Como isso normalmente é impossível, ou no mínimo muito difícil, eu iria analisar algumas outras até ficar satisfeito. E estaria sempre aberto para uma nova, caso me deparasse com ela. A melhor maneira de garantir que aquela ferramenta é a melhor é tentar me provar errado: vou procurar ferramentas que se mostrem melhores que a que encontrei.

Esse é um dos motivos que a Lambda3 trabalha com Linux, Windows e Macs. Porque usamos Java, C#, Ruby, Groovy, Node e outras linguagens e plataformas. Porque nesse momento temos um time trabalhando com fluxo contínuo e outro com iterações. Porque essas ferramentas e técnicas resolvem os problemas de forma diferente, e são adequadas ou não dependendo do contexto. Não aceitamos a primeira coisa com a qual entramos em contato, e por entrar em contato com muitas diferentes somos capazes de escolher a mais adequada para cada cenário com uma margem de erro menor.

Esse é o motivo que eu comecei a programar no Linux: eu queria saber se de fato o Windows era a melhor plataforma para programar. Esse é o motivo que me fez procurar programar com VIM corretamente. Para não parar na primeira. Para não me fixar no que eu já sei, mas sim no que eu não sei. Lembro que no começo da carreira eu sempre buscava informações que confirmassem que o Visual Studio era o melhor, que tudo que a Microsoft faz era melhor, em uma clara evidência de viés de confirmação, nunca buscando algo que me desmentisse do outro lado. Da mesma forma que muita gente que trabalha com Linux e ferramentas open source faz, dizendo que tudo que há no Windows ou feito pela Microsoft é ruim. Em ambos os casos há viés de confirmação e há uma busca desonesta da verdade, além de muita imaturidade. Na verdade, a única busca que há, na realidade, é a de confirmação de que você está certo, algo que não vai ajudar em nada o teu conhecimento, ainda que temporariamente faça você se sentir bem.

Foi daí também que saiu a ideia de pedalar em São Paulo. Muita gente sabe que eu praticamente só me locomovo por aqui de bicleta. Até 20 kms eu nem penso em sair de moto, de carro eu só saio quando tenho certeza que não vou pegar trânsito e se realmente o momento demandar. Até uma certa idade a minha crença era de que eu precisava de um carro para me locomover, até que eu resolvi desafiar essa crença, e mudar radicalmente minha relação com o trânsito dessa cidade – pra melhor.

A parte chata de viver no conforto da ignorância é que a todo momento alguém aponta pra você evidências de que você pode estar errado. Ainda que se feche na sua concha, você ainda vai ver essas evidências. E elas vão ser irritantes. E esse sentimento de irritação e raiva vai fazer com que você se feche ainda mais, e tenha ainda menos contato com quem pensa diferente. É assim que nascem os radicais.

Não dá pra ficar o tempo todo desafiando toda a crença, isso seria muito improdutivo. Mas é possível não aceitar a primeira. É possível gastar um pouco de tempo avaliando se o que acreditamos ser verdade realmente é, olhar do outro lado do muro. Faço esse convite a você, meu amigo leitor: que crenças você ainda não desafiou? Tem coragem de sair do conforto e buscar fatos que podem apontar que está errado? Fica o convite, depois me contem como foi aqui nos comentários, façam outros posts, vamos debater.

Ainda estou no começo do livro. Muito ainda deve vir dele. Uma coisa é certa, estou aprendendo muito, e está valendo cada minuto de investimento. E vai gerar outro brown bag na Lambda3!

  • Pablo Pagues

    Olá, achei o tema bem filosófico, bem legal.

    Toda experiência que nos vamos tendo a armazenamos no cérebro como um conceito, eu diria até que seria um pre-conceito. Quando criança nos temos a “mente em branco” e toda experiência vivida passa a ser um pre-conceito que o utilizamos para nos guiar na vida e acaba condicionando todo o nosso desenvolvimento futuro. Com o passar do tempo e o preenchimento da nossa personalidade com as experiências de vida vamos descartando outras experiências que não coincidem com o que nos já comprovamos e que existe na nossa mente como pre-conceito, não aceitamos cisnes pretos porque nunca vimos um e corremos o risco de negar a existência dele mesmo vendo um na nossa frente dependendo do grau de petrificação da mente. Quanto mais tempo passa, mais petrificados ficamos. Ai então começamos a ver só o que “queremos” ver, ou seja, aquilo que não vai abalar nossa forma pre-estabelecida de ver o mundo.

    Assim a experiência da verdade acaba sendo algo esquivo e você em qualquer discussão acaba defendendo ideias das quais você só tem pre-conceito, ou seja, como diz a frase “a expressão da ignorância acaba sendo uma mentira”.

    Quando surgem ideias opostas é muito positivo e são uma oportunidade, porque te força a uma revisão conceitual sem a qual nada mudaria em você. Viveria sempre com as mesmas ideias preconceituosas.

    O fato da opinião de alguém te incomodar é indício de que ele pode ter razão porque no fundo do teu subconsciente você sabe que esta abalando o que você sabe e esta confortável acreditando, porque afinal, nos não gostamos de incertezas (e nem mudanças) e isso nos faz fechar a mente a ideias novas e sem isso a mente envelhece e petrifica.

    • http://blog.lambda3.com.br/L3/giovannibassi/ Giovanni Bassi

      Pablo, é exatamente isso!
      Recomendo muito a leitura do livro. Se te interessou, você vai aproveitar muito.

      • http://pablopagues.wordpress.com/ Pablo Pagues

        Vou procurar o livro e adicionar na fila. Valeu pela dica.

  • Fernando Camargo

    Eu comecei a ler o livro quando ele foi lançado no Brasil, mas achei meio chato e cansativo. Um pouco repetitivo até. Mas gostei muito do artigo, talvez eu não tenha lido na época certa, ou não tenha lido com a mente aberta.

  • Robson Castilho

    Muito interessante!
    Acredito realmente que devemos sempre nos questionar sobre nossas decisões, até quando parecem estar “certas” e buscando novas possibilidades. Devemos evitar aquela máxima do “Sempre fiz assim e sempre funcionou”.

    Esse pensamento nos ajudou demais nos últimos anos. Conseguimos chegar num estágio legal de processos/ferramentas/tecnologias e não iremos parar.

    Parabéns pelo post. Livro adicionado no GoodReads :)

  • Francisco Berrocal

    Um post muito bom, que se embasa também nessa ideia (e também tem tudo a ver com nosso trabalho):

    http://www.akitaonrails.com/2013/10/07/off-topic-noestimates-debunked#.Umk3XfleaSo

  • Ubiratan Padilha

    Fala, Giovanni. Gostei de ler o que escreveu. É isso aí! Mais importante é aquilo que não sabemos do que o que sabemos. []